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admin 01 Nov 2010

Monção: Aos 70 anos Maria “Coveira” ainda enterra os mortos como há meio século

Na aldeia de Merufe, em Monção, o “negócio” do enterro dos mortos é assegurado, há mais de sete décadas, pela família Cerqueira, papel assumido no […]

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Na aldeia de Merufe, em Monção, o “negócio” do enterro dos mortos é assegurado, há mais de sete décadas, pela família Cerqueira, papel assumido no último meio século por “Maria Coveira”, que aos 70 anos garante que vai continuar a enterrar os mortos enquanto tiver forças. “Se aos cem anos ainda estiver viva e com forças, continuo a ser a coveira. Mas o queria mesmo era deixar isto para os meus filhos, mas eles têm outras vidas”, começa por contar. “As pessoas um medo terrível disto. Até fogem”, acrescenta.

 
A última esperança de deixar o negócio na família era um primo, que já a ajudava há vários anos. “Foi um desgosto muito grande. Morreu há três semanas, amarrado a uma tomada eléctrica. Nem tive coragem para o enterrar e tive que chamar um coveiro de fora”, diz, emocionada, Maria Cerqueira, a coveira de Merufe. Nas campas, que sozinha escava em meio-dia, garante que os únicos sustos que apanha é quando “volta e meia”, fica enterrada, pela cintura, sempre que alguma terra lhe desliza para cima. “Fora isso, tenho mais medo dos vivos do que dos mortos”, confessa. Maria aprendeu a ser coveira com o pai, que durante mais de 30 anos assegurou o serviço na freguesia. Aos 13 anos começou a ajudar no serviço e depois da morte do pai assumiu ela própria a tarefa, sozinha. Até porque mais ninguém da família se mostrou disponível. “Sentem-se mal só de pensar em estar dentro da cova. Quanto mais tratar do resto”, garante, dando o exemplo do marido. “De início ainda me ajudava, mas desde que partiu um caixão, porque estava a chover muito, nunca mais quis saber daquilo”.  A tarefa aprendeu-a com o pai, que acompanhava no interior das covas. “Ele já andava meio doente, tinha a Gota, e por isso nunca ia sozinho lá para dentro. Eu fui apreendendo e depois convidaram-me para o trabalho”, recorda. Por semana pode chegar a fazer aos “dois e três enterros” ou passar um mês sem trabalhar. “É um negócio que não é certo”, brinca, sempre bem disposta e repetindo, incansável: “Os mortos não fazem mal. Os vivos é que fazem a cara do diabo”. Para já garante que continua com forças para “enterrar os outros” e a mudança em Merufe ainda vai ter que esperar. “Enquanto for eu a enterrar os outros, é bom sinal. O pior vai ser quando forem outros a enterrarem-me a mim”, remata.

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