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Pedro Xavier 01 Abr 2020

Bispo de Viana do Castelo escreve mensagem para a vivência da Páscoa 2020

O Bispo de Viana do Castelo, D. Anacleto Oliveira, escreveu uma longa mensagem aos Diocesanos sobre uma Páscoa diferente. A pandemia do Covid-19, obrigou a várias alterações na vida das pessoas e as celebrações pascais não são exceção.

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Mensagem para a vivência da Páscoa 2020

Caríssimos Diocesanos,

Permiti, antes de mais, que me dirija a cada um de vós, tratando-o por “Tu”. Pode ajudar a aproximar-nos, uma necessidade particularmente sentida com a separação exigida pela pandemia do Covid-19 que nos afeta. Só juntos, podemos encontrar soluções para as incertezas com que nos deparamos. Entre elas, as que se referem às festividades pascais que se aproximam e que, dada a sua centralidade na nossa vida cristã, não vamos deixar de celebrar. Mas como?

Para já, só de uma coisa temos a certeza: nunca, até hoje, vivemos a Páscoa assim. Nem nós,  nem, que conste, os nossos antepassados na longa história do cristianismo. Nunca as celebrações litúrgicas – memoriais atualizantes dos acontecimentos centrais da nossa vida cristã – foram vedadas à participação presencial de todos os fiéis. Nunca a sua preparação, pela celebração individual do sacramento da Reconciliação, nos fora desaconselhada. Nunca tinham sido proibidas manifestações pascais de piedade popular, como a procissão dos passos ou a via-sacra. Ou a visita pascal, em que as portas das nossas casas se abrem a todos, para saborearmos a comunhão e a alegria concedidas pelo Ressuscitado.

Mas, por estranho que pareça, esta Páscoa pode ser única, também porque mais rica, quiçá, a mais bela da nossa vida. «Como assim?» – perguntarás. Exatamente, por lhe faltar tudo o que referi – e desde que, desse modo, a vivas! Repito: a vivas! É possível que, na prática, já o estejas a fazer na Quaresma que a pandemia transformou em quarentena, obrigatória para muitos, recomendável para a maioria. Uma Quaresma que é tanto mais frutuosa quanto mais nela já vivermos o mistério pascal no que ele tem de mais genuíno: o amor ilimitado de Cristo que passa pela total renúncia à vida, para assim a readquirir, mas ilimitada no tempo e no espaço. É à vivência deste amor que a pandemia nos desafia. Tem a coragem de a assumir naquilo de que te priva, como Cristo se privou da vida, para fazer disso fonte de vida.

Tenta, nesse sentido, seguir o que tento propor-te sobre a vivência desse amor, nas suas três vertentes e à luz daquilo que a epidemia nos oferece:

  • 1.º O amor por ti próprio. Que ele é indispensável, podes vê-lo, desde logo, pela tua provável reação ao vírus: o medo de seres infetado e, nesse caso, de isso te custar a vida; ou a solidão a que, se infetado, fores obrigado e que te priva do conforto de um familiar ou um amigo, não apenas por palavras, mas sobretudo por carícias.

Que significa tal medo e solidão, senão que amas a tua vida mais do que tudo? «Não, morrer não quero, de modo algum!» Se o não dizes, talvez o penses. E com razão: o teu ser consiste em ter a vida. Sem ela, negas-te no que és e tens de mais básico e constitutivo. E isso leva-me a perguntar: como é possível que a vida, própria e alheia, seja olhada como um alvo à mercê de teorias e práticas que permitem legalmente o seu descarte?…

Esta é a primeira grande lição que a pandemia nos traz: o reforço do amor por mim próprio, que inclui o amor incondicional à minha vida. E isto, por simples razões humanas – mas que Jesus, para nós cristãos, acentua, como sempre faz com tudo o que é humano.

É verdade que Ele raramente fala do amor-próprio. Por não ser importante? Pelo contrário, por ser natural e óbvio. Por isso se limita a inseri-lo em instruções ou situações, como a questão do maior mandamento da Lei de Deus. Ao primeiro (sobre o amor a Deus) acrescenta o segundo, derivado do primeiro e ao seu nível: Amarás o teu próximo como a ti mesmo (Mt 22,39, com a palavra de Deus de Lv 19,18). Ou seja, o critério e o impulso para amar os outros é o amor por mim.

E agora repara como Jesus o viveu, precisamente no início da sua paixão e morte, decisivas para Ele e para nós. Perante a iminente crucifixão e numa tristeza de morte, três vezes suplica: Pai, tudo te é possível: afasta de mim este cálice. Mas não se faça o que eu quero, mas o que tu queres (Mc 14,34.36). Não queria morrer. E só aceita por ser, naquelas circunstâncias, a vontade de Deus, isto é, o amor que tem a máxima expressão na renúncia à própria vida.

Num caso e no outro, já são as outras duas vertentes do amor a comandar o amor-próprio. Ou seja, sem elas, nem o amor por ti será possível.

  • 2.º O amor aos outros. É admirável o modo como está a ser vivido nesta epidemia. Antes de todos, pelos profissionais da saúde e seus colaboradores: Quantos deles estão a fazer o que podem e não podem, muitos em condições indesejáveis e para além do tempo habitual de serviço! Quantos renunciam ao convívio com os familiares, para os não infetarem! E quantos não foram já infetados!

A eles juntam-se os funcionários de instituições de solidariedade social que acolhem os mais débeis e, por isso, mais vulneráveis. Os detentores da autoridade que emitem as normas para que o vírus se não propague ou velam pelo seu cumprimento. Trabalhadores em empresas que garantem os bens elementares para a saúde ou a viabilidade económica do País. A grande maioria dos cidadãos que respeitam as normas que travam o contágio, ficando nas suas casas, por vezes sem condições para isso.

Mas, se, eventualmente, algumas destas pessoas agem apenas por dever de ofício ou obrigação, muitas outras o fazem sem outras contrapartidas senão o bem que querem fazer, designadamente, com ofertas: de contributos financeiros, de material para impedir ou combater o contágio, de logística para acolher quem mais precisa, de meios de animação para crianças e adultos, de propostas de oração para crentes e não crentes. Pais e avós que organizam uma vida familiar em que todos se sintam bem. Inúmeros utilizadores das redes sociais que ajudam a manter a comunhão, nas suas expressões mais variadas, entre as quais a espiritual.

É possível que estejas entre as pessoas que fazem estes ou outros bens. Que te move a isso, senão o amor ao próximo como a ti mesmo? O amor que leva a que te sintas no lugar do outro, para dele te aproximares – como o samaritano que, segundo conta Jesus, se aproximou de um moribundo, estrangeiro e até inimigo, para o salvar da morte certa. Faz o mesmo – diz-nos Jesus, a ti e a mim – e viverás (Lc 10,28.37). Que vida? A que é ilimitada e Ele próprio obteve pela oferta da vida na cruz, manifestada no perdão aos que o matavam: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem! E na doação do que lhe restava: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! (Lc 23,34.46). Adquiriu no amor de Deus a força para o amor ao próximo… ensinando-nos a fazer o mesmo.

  • 3.º O amor de Deus. É impressionante como um vírus tão minúsculo, que só ao microscópio se vê, esteja a ameaçar a humanidade inteira. Mostra-nos que o ser humano, que muitos pensam ser senhor de tudo, não passa afinal de uma débil criatura à mercê de um vírus que, ao que se sabe, nem os animais infeta. Somos, então, menos que animais? Não. Mas sabemos, ou deveríamos saber, que a vida é um bem, o meu maior bem, mas que não depende de mim. Recebi-a através de um número incontável de pessoas que, para isso, gastam a vida que também receberam. De quem? Em última instância, de Deus. Esta é uma convicção comum a todas as religiões e baseada na inegável dimensão religiosa do ser humano.

A pandemia recorda-nos esta verdade não apenas sobre a origem da vida, mas também sobre o modo de a orientar, para se não perder. Nisto a reação à presente pandemia tem sido, em geral, exemplar. A grande maioria das pessoas tudo faz para evitar o contágio, próprio e dos outros.

Quem o não faz, sem motivos justificados, desrespeita a vida, dos outros e a sua. Quanto mais gente infetar, maior é o risco de ser infetado. Por outras palavras: falta-lhe o amor pelos outros e por si, que, na prática é um só. Se pensas só em ti, menosprezando os outros, podes cair na tentação, por exemplo, a que te apoderes de tudo o precisas e não precisas, deixando os outros sem nada. Lembras-te, decerto, do açambarcamento de papel higiénico. Mas, então, que fazer para harmonizar as das vertentes do amor?

Reposta: a partir de Deus. Ele, sim, conjuga como ninguém o duplo amor. É, por isso, o Senhor da Vida, que tem em plenitude. Mas para a dar, num amor ilimitado. Repara como Ele o faz: De tal modo amou Deus o mundo que deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que acredita nele não pereça, mas tenha a vida eterna – diz-nos Jesus, o Filho por Ele enviado – que, por sua vez, tendo amado os seus que estavam no mundo, os amou até à consumação (Jo 3,16; 13,1) – na cruz em que deu a vida, até à última gota, e triunfou para sempre sobre a morte. É esta vida que Ele nos dá, todo o ano, mas de modo especial na Páscoa, este ano vivida de modo único – mas talvez mais completo, se quiseres e souberes.

 Não posso participar nas celebrações públicas numa igreja – mas podes segui-las pelos canais de comunicação social. Não é a mesma coisa, mas pode ser mais genuíno. Quando rezares entra no teu quarto e, fechando a porta, reza a teu Pai, que está no segredo, e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará – diz-te Jesus. Porquê? Para não caíres na tentação de rezares, para seres visto pelos homens (Mt 6, 5-6), como tantas vezes acontece na igreja.

Não posso aclamar o Senhor na entrada triunfal em Jerusalém – mas podes aclamá-lo em tua casa, a sós ou com os teus, associando-te aos cânticos que ouves durante a transmissão. Não posso assistir ao lava-pés ao vivo – mas podes purificar as mãos e tudo o que pode infetar, a ti ou aos outros. Não posso beijar o Senhor crucificado – mas podes enviar uma mensagem de apoio e gratidão a quem, em hospitais ou outros lugares, está a dar a vida para salvar vidas. Não posso acender a minha vela no círio de Cristo que passa da morte para a vida – mas podes, por uma palavra ou um gesto, iluminar quem anda nas trevas da dor e da ansiedade ou do erro e do pecado por causa do vírus. Não posso receber em casa a cruz do Senhor – mas podes enviar, até a um inimigo, um sinal de reconciliação e de paz.

Faz isto ou algo de semelhante, e terás uma Páscoa tão inesquecível, que a próxima será vivida de modo muito mais autêntico: aquele em que transpões o amor recebido nas celebrações para a tua vida de cada dia.

Santa Páscoa!

 

Viana do Castelo, 29 de Março de 2020 (Quinto Domingo da Quaresma)

† Anacleto Oliveira (Bispo de Viana do Castelo)

 

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