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Pedro Xavier 17 Mai 2020

Rádio Geice falou com jovem de Ponte da Barca e ex-aluna do IPVC “presas” em navio no México há 78 dias

Há alguns anos a trabalhar num navio cruzeiro, Margarida Sá, uma jovem natural de Ponte da Barca e Joana Ferreira, ex-aluna no IPVC, estão a viver uma das "piores experiências das suas vidas". Devido à pandemia do novo coronavírus as duas jovens, encontram-se a bordo, há 78 dias, do navio Koningsdam, atualmente ancorado na baía de Porto Vallarta no México.

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Margarida Sá, a jovem minhota, trabalha na empresa Seabourn com sede em Seattle, Washington, EUA, encontra-se, tal como todos a bordo, a aguardar autorização do governo daquele país para desembarcar, mas os pedidos de desembarque da tripulação têm sido sucessivamente recusados.

Em conversa com a Rádio Geice, a jovem barquense contou a historia de uma aventura “que tarda em acabar”.

“Fui transferida juntamente com mais pessoas de 7 navios diferentes para este navio onde me encontro actualmente (Koningsdam). Todos os hóspedes da empresa onde trabalho (Seabourn) foram desembarcados a 18 de março, na Austrália mas já há algum tempo que não saíamos para terra porque os países começaram a fechar as fronteiras”, disse Margarida Sá.

“Estamos assim há 78 dias no mar e há cerca de mês e meio que estão a tentar arranjar solução para nos enviarem de volta para casa. No dia 29 de abril fomos estão transferidos para o Koningsdam e estivemos 14 dias em quarentena, isolados nas cabines, onde fazemos as refeições e com horários definidos para apanhar ar fresco. No total devemos passar cerca de 22 horas por dia no quarto”, explicou a jovem barquense.

Margarida Sá confidenciou, que “nunca durante este período houve sintomas de Covid-19, isto porque ninguém entra nem sai do barco há quase 3 meses”.

“Estivemos há pouco em los Angeles mas não autorizam a nossa saída, apenas americanos e canadianos. Viemos então para o México que inicialmente aceitou o nosso desembarque. Chegamos cá e recusaram. A população local recusa o nosso desembarque. Somos um navio limpo, estamos todos saudáveis, só queremos ir embora para casa e as pessoas tratam-nos como portadores do vírus quando nós, é que devíamos ter medo de enfrentar o mundo uma vez que estamos nesta bolha há quase 3 meses”, desabafou.

A jovem de Ponte da Barca revelou que “temos contatado os consulados, serviços de estrangeiros e fronteiras, etc mas a resposta que obtivemos foi que era um problema que tinha de ser resolvido pela entidade e que não poderiam actuar . Somos cerca de 1200 pessoas a bordo, 13 deles portugueses”.

A história do grupo de portugueses foi revelada na quinta-feira passada através do Facebook por Joana Ferreira, com quem a Rádio Geice também chegou a falar.

Natural de Felgueiras, no Porto, Joana viveu em Viana do Castelo, onde estudou durante oito anos. Licenciou-se em Design no Instituto Politécnico (IPVC), e encontra-se na mesma situação de Margarida, a jovem natural de Ponte da Barca, licenciada em Turismo.

Alguém nos consegue ouvir?

Sou um dos membros da tripulação preso no mar devido ao COVID-19. Estou atualmente ancorado na baía de Porto Vallarta no México, a bordo do Koningsdam. Não tenho a certeza de quantos portugueses temos a bordo, considerando que temos membros da tripulação de 8 navios diferentes e mais de 70 nacionalidades. Fomos transferidos no dia 29 de Abril, do Seabourn Sojourn, onde já estávamos a cumprir todas as regras necessárias para o desembarque – distância social, usamos uma máscara facial em todos os momentos numa área pública, cabine individual, horários de refeições de meia hora para um certo número limitado de pessoas, higienização obrigatório de mãos em todos os cantos, verificação de temperatura duas vezes por dia, etc. Devo dizer que a nossa empresa fez tudo o que podia para nos manter saudáveis, seguros e sãos dentro do seu poder e por isso estou extremamente grato. Hoje completamos o nosso 75º dia de auto-isolamento. Durante todo este tempo nunca tivemos um único caso a bordo. Estamos todos saudáveis e em boa forma. Portanto, não entendemos qual razão leva a todos os países que chegamos, para recusar o nosso pedido de desembarcar, para nos recusar a oportunidade de regressar aos nossos países. Não entendemos porque estamos a ser tratados por governos e políticos – mas especialmente pelas redes sociais – como se fôssemos principalmente responsáveis pelo transporte do vírus, apesar de casos estatisticamente a bordo ou relacionados representarem apenas 0,07 % do mundo. Não entendemos porque não nos é dada a oportunidade de regressar às nossas famílias e entes queridos. Devemos ser nós que temos medo de ir ao mundo, considerando que estamos vivendo em um lugar sem casos zero, e indo para um lugar com milhões, mas em vez disso é o mundo que tem medo de nós. Estamos todos a chegar a um ponto em que nos perdemos, a nossa sanidade mental e o nosso sentido de certo ou errado. Já houve quatro suicídios de tripulantes em navios diferentes. É assim que fica desesperado quando não se faz nada de errado e, no entanto, você está impotente no que chega aos seus direitos como ser humano. E mesmo com tudo dito ainda estamos pacientemente à espera, dia após dia, por aqueles que têm poder para tomar medidas em nosso nome.

Só queremos ir para casa. Isso é pedir demais?

Fotos cedidas à Rádio Geice por Margarida Sá e Joana Ferreira

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