A performance propõe uma reflexão crítica sobre as circulações do ouro no contexto colonial e as suas implicações económicas, simbólicas e corporais, com especial incidência sobre as mulheres nos dois lados do Atlântico. Partindo do encontro entre mulheres ⎯ das suas vozes e corpos em relação — o projeto convoca-as como protagonistas ativas de memória, transmissão e resistência, recusando narrativas que as reduzem a figuras meramente ilustrativas da história.
Em cena, o grupo minhoto de cantares e saberes tradicionais Cantadeiras do Vale do Neiva — cuja vinda à Bahia foi viabilizada através de uma iniciativa comunitária de financiamento coletivo — encontra-se com o coletivo baiano Cantadeiras Ohùn Obìnrin, grupo de mulheres guardiãs de tradições orais afro-brasileiras. Voz, canto polifónico, gesto, corpo e ornamento constroem um dispositivo performativo de carácter ritual, no qual a escuta se afirma como ação política e a presença partilhada multiplica narrativas, abrindo espaço a novas possibilidades de relação.
O projeto estabelece um diálogo entre a filigrana minhota e as joias de crioula da Bahia, entendidas não como simples adornos, mas como matérias políticas. A delicadeza formal da filigrana condensa a violência histórica da extração do ouro e a sofisticação técnica que sustentou economias coloniais. O corpo que a sustenta torna-se território de inscrição histórica, expondo as relações entre valor, poder e género. Num momento em que o ouro volta a afirmar-se como reserva de valor e refúgio financeiro, a performance reinscreve-o criticamente no presente, revelando como o valor continua a ser extraído à custa de corpos e territórios. O ornamento deixa de dourar uma história única para a expor como campo plural, fluido e enriquecido por múltiplas vozes.