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28 Set 2026

Formação e sub-23: o futebol que quase ninguém vê

Rádio Geice

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Um jovem de dezasseis anos que joga no escalão de juvenis de um clube de primeira divisão treina cinco dias por semana, compete ao fim-de-semana, e tem um percurso que a maior parte do país nunca vai ver. Não passa na televisão, não tem cobertura regular na imprensa desportiva nacional, e os seus resultados raramente saem do círculo imediato de família, amigos e adeptos do clube. Ele existe, o jogo existe, e o ecossistema que o sustenta é muito mais vasto do que a cobertura que recebe sugere.

A formação é a base do futebol profissional. Todos os jogadores que aparecem na televisão passaram por ela. Mas a formação em si — os escalões de iniciados, juvenis, juniores e sub-23 — tem uma visibilidade televisiva que é, na prática, muito próxima de zero. Não há dados sistemáticos que o comprovem, porque não há grelha para medir: se não há transmissão, não há grelha, e se não há grelha, não há mapa.

O que existe: as equipas B na Liga 2

Há uma excepção parcial neste cenário. As equipas B dos grandes clubes — FC Porto B, Sporting CP B, Benfica B — participam na Liga Portugal 2, a segunda divisão do futebol profissional. Essa competição tem cobertura televisiva parcial: no período de 27 dias medido entre 9 de Agosto e 16 de Setembro de 2026, a Liga 2 registou 88 % de jogos com canal identificado, o que representa o nível mais baixo entre todas as competições na amostra, mas ainda assim cobre a grande maioria dos jogos.

As equipas B dos grandes estão, portanto, na televisão — quando jogam na Liga 2 e quando essa transmissão está disponível. É uma cobertura que existe e que funciona como ponto de transição: são jogadores de formação avançada, sub-23, a competir contra profissionais num campeonato real, com transmissão numa plataforma paga. Quem tem Sport TV pode ver um jogador de dezoito anos do FC Porto ou do Sporting CP jogar a segunda divisão. Os dados do período medido mostram que esses jogos existem na grelha — ainda que com algumas lacunas: os quatro jogos da Liga 2 sem canal identificado naquele período envolviam todos equipas B (o Dia de Jogo publica a grelha de transmissões jogo a jogo em https://diadejogo.pt/).

O que não existe: os sub-19, sub-17, sub-15

Abaixo das equipas B, a invisibilidade televisiva é total. Os campeonatos nacionais de juniores, juvenis e iniciados — que reúnem os melhores jovens jogadores do país, como o Campeonato Nacional Sub-19 da I Divisão organizado pela Federação Portuguesa de Futebol — não têm cobertura televisiva regular. Há transmissões pontuais, geralmente de finais ou de fases decisivas, mas o campeonato semana a semana não tem grelha que permita saber, num domingo qualquer, onde joga cada clube.

Não é apenas uma questão de televisão. É uma questão de informação: para muitos destes jogos, a data, a hora e o local não estão publicados de forma centralizada e fiável com antecedência suficiente para que o adepto possa planear. O jornalismo desportivo de formação é, em Portugal, quase inexistente fora dos grandes clubes. O Benfica, o Porto e o Sporting têm os seus próprios canais de comunicação que cobrem as equipas de formação. Os restantes clubes, mesmo os que competem nos campeonatos nacionais de formação, raramente têm cobertura regular fora do seu círculo local.

O que o adepto regional perde

Para o adepto que vive numa cidade com um clube de formação competitivo — e há muitos, porque o futebol de formação existe em todo o país —, a ausência de cobertura tem consequências práticas. Não se sabe quando joga o sub-19 do clube local, onde é o próximo jogo, ou qual a situação na tabela. Esta informação existe dentro do clube, nos grupos de WhatsApp dos pais, nas conversas do balneário. Não chega ao público mais alargado.

É uma diferença que se vê com clareza quando se compara com o que existe para o futebol sénior profissional: os 44 jogos da Liga Portugal no período de 27 dias medido em Agosto e Setembro de 2026 tinham todos canal identificado. Antes de a Taça de Portugal ter começado, a Liga Portugal era a única competição com cobertura de 100 % na amostra. Para a formação, essa garantia não existe em nenhum escalão.

A formação como tema jornalístico subexplorado

Há uma ironia neste panorama. O mercado de transferências de jogadores jovens portugueses é um dos mais activos da Europa. Os olheiros dos maiores clubes europeus frequentam regularmente os jogos de formação em Portugal, identificando talentos que depois seguem para ligas de maior dimensão. Mas o jornalismo desportivo que cobre esse mercado raramente cobre os jogos onde esses talentos aparecem.

A razão é conhecida: cobertura de formação é cara em termos de deslocações e barata em termos de audiência imediata. O jogo de sub-19 do Vitória de Guimarães num sábado de manhã não tem o público do jogo da Liga Portugal à tarde. Mas tem algo diferente: uma história ainda por contar, jogadores que ainda não chegaram ao lugar que podem chegar, um percurso que só se torna visível retroactivamente, quando o jogador explode e alguém escreve o perfil com as referências ao passado.

O que muda quando se cobre

Os clubes de formação que têm cobertura — ainda que mínima, ainda que apenas na imprensa regional — notam a diferença. Os pais dos jogadores partilham os artigos. Os outros jovens do clube sentem que o trabalho é reconhecido. Os patrocinadores locais vêem o clube mencionado. A cobertura não precisa de ser televisiva para ter efeito; precisa de ser regular e de ter qualidade suficiente para ser partilhada.

O futebol de formação é, em grande medida, o futebol que as comunidades locais realmente vivem. É o sobrinho que joga, o filho do vizinho, o miúdo que toda a gente conheceu a dar os primeiros pontapés no largo da aldeia. Em Viana do Castelo, o Neves FC abriu captações para todos os escalões da sua formação neste Verão, com treinos de segunda a sexta, ao fim da tarde. Que esse futebol quase não passe na televisão é uma realidade do mercado. Que quase não tenha cobertura jornalística é uma escolha — e uma escolha que pode ser diferente.

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