A história desta dupla começou muito antes da competição. Quando Flávio Fernandes, hoje com 24 anos, procurava uma instituição onde estudar Engenharia Informática, foi Hélder Gonçalves, de 26 anos, quem lhe recomendou a UNIPVC. O conselho partiu de quem conhecia a instituição por experiência própria: Hélder tinha concluído a mesma licenciatura em 2021, na Escola Superior de Tecnologia e Gestão (ESTG-UNIPVC). Anos mais tarde, voltaria a ser ele a lançar um desafio ao amigo, desta vez para participarem juntos num concurso de inovação tecnológica.
Ambos naturais de Barcelos, os dois jovens já partilhavam experiências profissionais na área da tecnologia, mas o Hack4Guimarães 2035 deu-lhes um problema diferente daqueles com que habitualmente trabalham: encontrar uma forma de recolher mais roupa e outros resíduos têxteis, evitando que materiais com potencial de reutilização acabem misturados com o lixo comum.
O desafio, lançado pela empresa municipal de Guimarães, a Vitrus Ambiente, partia de uma realidade concreta. Em 2025, o município produziu cerca de 51 mil toneladas de resíduos indiferenciados. Com base na proporção estimada de têxteis presente nesses resíduos, calcula-se que aproximadamente três mil toneladas de materiais têxteis tenham seguido esse destino, enquanto apenas 301 toneladas foram recolhidas separadamente. Os números ajudam a perceber a dimensão do problema e a dificuldade de recuperar materiais que, depois de misturados com outros resíduos, podem perder grande parte do seu potencial de reutilização.
A questão ganha particular relevância numa região como o Norte, onde se concentra em Portugal uma parte significativa da indústria têxtil e do vestuário. Embora o Novelo se destine à recolha de resíduos têxteis após a sua utilização, e não aos desperdícios da produção industrial, a proposta responde a um desafio comum: evitar o desperdício de materiais e criar condições para que possam voltar a ser utilizados.
Recolher mais, sem multiplicar contentores ou percursos
O ponto de partida não foi criar uma nova rede de contentores. Foi perceber como seria possível aproveitar melhor os recursos existentes.
Flávio e Hélder propõem uma viatura dedicada exclusivamente à recolha de resíduos têxteis, sem compactação, para preservar as condições dos materiais. A solução contempla a entrega de sacos fechados à porta, num dia fixo por freguesia, quando essa modalidade se revelar viável, e paragens em locais por onde a viatura já circula. Escolas e sedes de juntas de freguesia poderão funcionar como pontos de recolha, aproximando o serviço da população sem exigir a instalação de novos equipamentos na via pública.
Estas opções não são apresentadas como uma receita única. A plataforma desenvolvida pelos dois jovens permite estudar diferentes combinações e perceber quais fazem mais sentido em função do território, das quantidades a recolher e do dinheiro disponível.
Na prática, o município pode indicar quanto pretende investir e que volume de resíduos têxteis gostaria de recuperar. O Novelo cruza essa informação com os dados da operação e apresenta cenários que permitem comparar pontos de recolha, percursos, custos e quantidades estimadas de materiais recuperados.
A proposta apresentada para Guimarães considera uma rede de 60 pontos de recolha distribuídos por 45 freguesias, tirando partido de locais e circuitos já existentes.
Num dos cenários simulados, com um orçamento anual de 60 mil euros, o sistema estima que seria possível desviar cerca de 446 toneladas de resíduos têxteis do lixo indiferenciado, das quais aproximadamente 265 toneladas teriam potencial de reutilização. A simulação aponta ainda para cerca de 47 mil euros em custos de tratamento evitados, face a aproximadamente 45,8 mil euros de custos operacionais estimados.
São valores que demonstram o potencial da solução, mas que os autores não apresentam como resultados já alcançados. As projeções dependem da confirmação de custos e da validação das condições de recolha no terreno.
A inteligência artificial ajuda a perguntar. A matemática encontra as respostas.
Por detrás da plataforma está uma combinação de inteligência artificial e algoritmos de otimização. O utilizador pode fazer perguntas em português, explorar alternativas e comparar cenários, sem precisar de dominar as ferramentas técnicas que suportam os cálculos.
A inteligência artificial facilita a interação com o sistema, mas os resultados são produzidos por um modelo de otimização matemática e sujeitos a mecanismos de validação, para que as decisões assentem nos dados introduzidos.
O Novelo inclui ainda funcionalidades de apoio à identificação e triagem dos materiais, bem como mecanismos de rastreabilidade através de códigos QR, que permitem acompanhar os lotes ao longo do processo de recolha e encaminhamento.
Tudo isto foi desenvolvido em cinco dias, o período disponibilizado aos participantes do hackathon. Nesse tempo, Flávio e Hélder tiveram de analisar os dados fornecidos pela Vitrus Ambiente, compreender as limitações da operação, desenhar uma proposta e construir uma plataforma capaz de demonstrar como funcionaria.
O resultado foi distinguido tanto pela resposta ao desafio específico da recolha de têxteis como pela sua qualidade global entre os projetos apresentados a concurso.
Uma recomendação que começou na UNIPVC e chegou a dois prémios
Para Flávio Fernandes, atualmente no terceiro ano do curso de licenciatura em Engenharia Informática na ESTG-UNIPVC, a experiência foi também uma oportunidade de testar conhecimentos adquiridos na Universidade Politécnica de Viana do Castelo perante um problema real, com condicionantes e necessidades concretas.
O estudante destaca a importância da componente prática da formação, que lhe permite relacionar o que aprende nas aulas com situações que exigem encontrar soluções, tomar decisões e adaptar conhecimentos a diferentes contextos.
“Esta experiência ajuda-nos muito a aplicar o conhecimento a problemas reais do dia a dia, a encontrar a verdadeira utilidade, no mundo real, daquilo que aprendemos”, afirma Flávio Fernandes.
Há, nesta conquista, uma ligação pessoal à Universidade que ultrapassa o percurso académico de cada um. Hélder, que recomendou a UNIPVC a Flávio quando este escolhia onde estudar, é hoje também um dos seus parceiros em projetos tecnológicos. A experiência profissional que ambos foram adquirindo acabou por se cruzar com a formação académica na resposta a um desafio ambiental.
Hélder Gonçalves, antigo estudante da UNIPVC, trabalha atualmente em consultoria tecnológica, com atividade ligada ao desenvolvimento de soluções de inteligência artificial e automatização. A participação no Hack4Guimarães 2035 permitiu-lhe explorar, em conjunto com Flávio, a aplicação dessas competências a uma área diferente: a gestão de resíduos.
A dupla acredita que o Novelo poderá ter utilidade para além de Guimarães. Embora tenha sido construído a partir dos dados e das necessidades apresentados pela Vitrus Ambiente, o modelo foi pensado para poder ser adaptado a outros municípios, com diferentes dimensões, recursos e objetivos de recolha.
O próximo desafio é sair da simulação e chegar às ruas
A vitória na classificação geral do Hack4Guimarães 2035 valeu à dupla um prémio de 7.500 euros, ao qual se juntaram 1.000 euros pela conquista do desafio TexVitrus, lançado pela Vitrus Ambiente. No total, os dois jovens arrecadaram 8.500 euros.
Mas o projeto não termina com a distinção. Flávio e Hélder propõem a realização de um projeto-piloto de três meses em duas freguesias de Guimarães, para testar a recolha em condições reais, aferir os custos efetivos e perceber até que ponto as estimativas produzidas pela plataforma se confirmam.
Para Hélder, a conquista abre também caminho a novos investimentos tecnológicos. O antigo aluno da UNIPVC pretende aplicar parte do prémio na aquisição de equipamento de elevado desempenho para processamento de inteligência artificial em infraestrutura própria, com o objetivo de desenvolver soluções que reforcem a proteção e a anonimização dos dados dos clientes.
O Novelo nasceu em cinco dias, a partir de um problema concreto e de dados reais. O próximo desafio de Flávio Fernandes e Hélder Gonçalves será perceber se a solução que lhes valeu dois prémios consegue também mudar o destino da roupa que, todos os dias, acaba no lixo indiferenciado.