Na sexta-feira, 23 de outubro, o brasileiro Marcelinho da Lua passa discos no Pérola Negra, na Rua de Gonçalo Cristóvão, no Porto. A noite chama-se “Baile Tranquilo”, como o álbum “Tranqüilo”, que o DJ e cantor lançou em 2003 com Seu Jorge e Mart’nália, e cujo tema-título foi parar à banda sonora do videojogo FIFA 06. Uma semana antes, a 16, a KEBRAKU, festa de música urbana brasileira, traz à mesma sala MC Luanna. São duas datas normais na agenda de uma das discotecas mais conhecidas da cidade, que a 18 de novembro faz dez anos desde que reabriu como sala de música.
Quem lá entra para dançar encontra os sofás vermelhos, os espelhos e os varões que fizeram a fama da casa. Durante décadas, o Pérola Negra foi sinónimo de striptease no Porto e o lado B da noite da cidade, o das casas de alterne e, segundo se contava, do sexo ao vivo.
O negócio que enchia a casa não acabou quando ela fechou. Deixou de precisar de palco. Hoje, quem trabalha como acompanhante anuncia por conta própria em diretórios online e combina tudo pelo telemóvel, sem sala, sem porteiro e sem plateia. Sem esse público, casas como esta perderam a razão de existir, e o espaço ficou livre para outra coisa.
Uma casa que fechou muitas vezes
Antes de ser discoteca, o Pérola Negra conheceu vários fechos. Segundo o Público, foi encerrado por dívidas às Finanças, foi a leilão, reabriu, voltou a fechar e teve nova reabertura, “mas o declínio já era irreversível”. Quando o empresário Mário Carvalho ficou com o espaço, estava fechado havia anos.
Carvalho era um nome conhecido da noite do Porto, dono do Lusitano e antigo responsável pela Indústria, e andou cerca de cinco anos atrás da casa. “Eu gosto de desafios”, disse ao Público no dia em que a reabriu, a 18 de novembro de 2016. Ao Correio da Manhã explicou o que queria, “uma discoteca típica dos anos 80/90”, e o que não ia mudar: “A base da casa tem de ser mantida.”
Os tetos e os sofás vermelhos, os espelhos e os varões ficaram onde estavam. A nova discoteca tinha 550 metros quadrados e abria às sextas, aos sábados e em vésperas de feriado, das onze da noite às seis da manhã. A música ia dos êxitos de várias décadas ao disco e ao house, e o público de partida eram os maiores de 40, com a ideia de ir trazendo gente mais nova. Havia festas próprias: a “It’s Amazing”, de música eletrónica, de dois em dois meses e sem anunciar os DJs, e a “Geração Vinil”, marcada para todos os 23 de dezembro.

A viragem de 2019
No início de 2019, a casa mudou outra vez de mãos e de som. Com Jonathan Tavares à frente, o Pérola Negra passou a ter programação regular, feita com editoras, coletivos e programadores, dos Dealema à Favela Discos e à lisboeta Príncipe, passando por Tetris, Fuga, Pedro Tenreiro e Gustavo Pereira. Havia ainda trocas com produtores holandeses e com o Pip, um clube da Haia. O hip-hop, a eletrónica, o jazz e o house tomaram o lugar dos êxitos de outras décadas, e a Visão descreveu então um clube “inclusivo e colaborativo”.
A decoração ficou toda. É isso que distingue o Pérola Negra de outras salas da cidade: a música mudou duas vezes em poucos anos, mas o espaço continua a mostrar o que foi.
Porque é que já não há casas assim
Em Portugal, a prostituição não é crime, mas lucrar com a de outra pessoa é. O artigo 169.º do Código Penal pune o lenocínio, ou seja, quem, por profissão ou para ganhar dinheiro, fomente ou favoreça a prostituição de outra pessoa. As casas de alterne viveram sempre nessa zona cinzenta, a vender bebidas e espetáculos, e é por isso que tantas foram alvo de operações policiais ao longo dos anos.
A internet tirou o negócio dessa zona cinzenta. Quem anuncia deixou de depender de uma casa ou de um dono, decide quando trabalha e com quem se encontra, e o contacto fica entre as duas partes. As casas que restavam perderam clientes e trabalhadoras ao mesmo tempo, e muitas fecharam sem que ninguém desse por isso.

Dez anos depois
A 18 de novembro, o Pérola Negra faz dez anos como discoteca. Nesse tempo passou do revivalismo dos anos 80 e 90 ao rap, ao funk e à eletrónica, e tornou-se a casa de festas regulares como a KEBRAKU, que lá organiza noites desde pelo menos 2023.
Para quem vai a 16 ou a 23 de outubro, a experiência é a de uma noite de discoteca como outra qualquer. A diferença está à volta. Poucas salas guardam tão à vista o que foram, e no Pérola Negra, no número 284 da Rua de Gonçalo Cristóvão, dança-se entre os mesmos espelhos onde, há três décadas, o espetáculo era outro.